O príncipe se tornará imperador em 1º de maio e difere de muitas formas dos seus antecessores mais tradicionais.
Foto do então príncipe Naruhito, ainda em 2018.

O Japão vai dar início a uma nova era em 1º de maio, quando o príncipe Naruhito vai subir ao Trono do Crisântemo e se tornar imperador.

Seu pai, o imperador Akihito, será o primeiro a abdicar em mais de 200 anos, encerrando a atual era imperial Heisei em 30 de abril.

O futuro imperador difere dos antecessores de muitas formas. Em diversas ocasiões, desafiou as expectativas ao priorizar sua família e sua vida acadêmica.

Observadores enviesados especulam se o príncipe irá adaptar sua futura posição às necessidades de um ‘mundo em mudança’. Mas ele pode, em vez disso, trabalhar sob o legado deixado pelos seus antecessores e seguir a tradição milenar dos imperadores japoneses.

Um acadêmico

O príncipe Naruhito, de 59 anos, representa um Japão e uma família imperial que diferem significativamente do passado.

Ao contrário do seu pai, que foi coroado príncipe no nascimento, Naruhito teve a oportunidade de seguir seus sonhos acadêmicos. Depois de se graduar em história na prestigiosa Universidade Gakushuin, em Tóquio, o príncipe estudou na Universidade de Oxford, na Inglaterra, de 1983 a 1985.

Estudou a história do transporte no Rio Tâmisa, mostrando um interesse por transportes aquáticos que continuou com sua pesquisa de doutorado, em Gakushuin.

Os anos em Oxford deixaram grandes marcas em Naruhito. No livro de memórias lançado em 1993, O Tâmisa e Eu, o príncipe descreveu o período como o “mais feliz” de sua vida.

Apesar de assumir responsabilidades reais desde 1991, como príncipe herdeiro, Naruhito manteve sua paixão pela academia. Também continuou próximo a assuntos relacionados à água, tendo sido presidente honorário do Conselho Consultivo sobre Água e Saneamento das Nações Unidas, de 2007 a 2015.

O príncipe Naruhito, sua filha a princesa Aiko e a sua esposa, a princesa Masako.

Um homem de família

O príncipe Naruhito viveu com sua família até os 30 anos. Isso representa um distanciamento da tradição imperial, que requer que futuros imperadores sejam criados pelos seus súditos, não pela família.

A prática tinha como objetivo instilar consideração pelo povo, em vez do apego pessoal. Mas, na época em que o príncipe nasceu, a vida em família era considerada igualmente importante.

A importância da família para Naruhito veio à tona novamente quando sua mulher, a princesa Masako, enfrentou um “transtorno de adaptação” relacionado ao estresse.

Masako, que era diplomata, foi diagnosticada com o transtorno em 2004, devido à tensão da vida imperial e a pressão para ter um filho homem.

Então, o príncipe assumiu um papel ativo na criação da filha do casal, a princesa Aiko, e defendeu a esposa firmemente das críticas de que estaria negligenciando as responsabilidades públicas.

A própria princesa Aiko se tornou tema de debate sobre a sucessão imperial. De acordo com uma lei imperial de 1947, apenas homens podem ascender ao trono.

Em 2004, o então primeiro-ministro Junichiro Koizumi propôs uma revisão na lei para permitir a figura de uma imperatriz – o que, potencialmente, faria da princesa Aiko uma futura líder.

Toda a família imperial japonesa junta, com o monarca, agora ex-imperador Akihito, sentado ao centro.

Esses planos foram interrompidos após o nascimento do seu primo, príncipe Hisahito em 2006 – a figura de um herdeiro homem encerrou a urgência para debater o assunto.

Início de uma nova era imperial

Quando o príncipe Naruhito se tornar imperador, será o alvorecer da era Reiwa no Japão. O nome da nova era imperial, que significa “harmonia bela”, tem origem na antologia poética mais antiga do Japão, Manyoshu.

Isso marca o abandono de uma tradição de nomes de eras imperiais derivados de clássicos chineses, uma prática que durou mais de 1.300 anos.

Mais de 70% dos cidadãos japoneses aprovaram o novo nome, de acordo com pesquisas de opinião. A expectativa em relação ao futuro imperador também é altamente favorável.

Apesar da aprovação do público, há dúvidas sobre o papel do futuro imperador em um Japão em transformação. As atribuições do imperador são principalmente cerimoniais, focadas no engajamento com os cidadãos e em encontros com dignitários estrangeiros.

Mas se espera que Naruhito, primeiro imperador nascido após a Segunda Guerra Mundial, faça pressão por mudanças. “O mundo está mudando e nós imaginamos como ele (Naruhito) vai ajustar sua posição e sua responsabilidade a esse novo cenário”, disse o editorial de um importante jornal econômico japonês, o Nikkei.

A lei que impede a filha de Naruhito de se tornar imperatriz é de particular importância. Todos os olhos estão no futuro imperador, atentos se ele irá pressionar por uma mudança na legislação. Mas, por enquanto, Naruhito tem evitado o tema.

Em vez disso, o príncipe acadêmico enfatizou a necessidade de aprender de seus antecessores e continuar com o trabalho feito por eles.